Feminicídio no Brasil: Epidemia Silenciosa e os Obstáculos para Mulheres Surdas

qui, 27 de março

Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado um cenário alarmante de violência de gênero. Dados do Ministério da Justiça revelam que, na última década, quase 12 mil mulheres foram assassinadas por feminicídio. Ainda mais preocupante é o fato de que a taxa desse crime quase triplicou desde 2015, evidenciando que a violência contra a mulher continua sendo uma chaga aberta na sociedade.

O feminicídio, definido como o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero, é apenas a face mais extrema de um problema que se manifesta de diversas formas: agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais. Apesar da existência de leis como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), os números mostram que a proteção às mulheres ainda enfrenta grandes desafios.

A Realidade das Mulheres Surdas e as Barreiras à Denúncia

Se para mulheres ouvintes denunciar a violência já é um desafio, para mulheres surdas esse obstáculo é ainda maior. O Brasil possui cerca de 10 milhões de pessoas que registraram algum tipo de deficiência auditiva, e muitas delas enfrentam dificuldades significativas no acesso a canais de denúncia e proteção.

Um dos principais problemas é a falta de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) nas delegacias e órgãos de apoio às vítimas. Muitas mulheres surdas acabam impossibilitadas de relatar os abusos que sofrem, já que a maioria dos serviços públicos não está preparada para atender essa população de maneira acessível. Em alguns casos, elas dependem de familiares ou amigos para intermediar a comunicação, o que pode ser um fator inibidor da denúncia, especialmente se o agressor for alguém próximo.

Além disso, os canais de denúncia, como o Disque 180, ainda não são totalmente acessíveis para mulheres surdas. Embora existam avanços com aplicativos e serviços online, eles ainda são insuficientes para garantir que todas tenham acesso rápido e seguro à ajuda necessária.

O Que Pode Ser Feito?

Para combater a violência de gênero de forma eficaz, é fundamental que políticas públicas sejam aprimoradas para incluir todas as mulheres, independentemente de suas condições físicas. Algumas ações essenciais incluem:

  1. Ampliação da acessibilidade nos serviços de denúncia e acolhimento, garantindo a presença de intérpretes de Libras em delegacias e centros de apoio.

  2. Capacitação de profissionais da segurança pública, para que saibam lidar adequadamente com mulheres surdas em situação de violência.

  3. Investimento em tecnologia acessível, como aplicativos de denúncia com suporte para Libras e atendimentos por videochamada com intérprete.

  4. Campanhas de conscientização direcionadas à comunidade surda, para informar sobre os direitos e canais de ajuda disponíveis.

A luta contra o feminicídio deve ser inclusiva e considerar as múltiplas barreiras enfrentadas por mulheres em diferentes contextos. Apenas com ações concretas e estruturadas será possível garantir que nenhuma mulher seja silenciada pela violência – seja por medo, seja pela falta de acessibilidade.

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